Vislumbres de Naragonia PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Quarta, 02 Abril 2008 13:07

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Os Naragonia são, incontestavelmente, uma das bandas mais amadas pelo público português. E depois de ouvi-los e de vê-los actuar (mais recentemente na última edição do Fest-i-Ball) não há grandes margens para dúvidas sobre os motivos do nosso encanto.

A música que Toon Van Mierlo e Pascale Rubens tocam prende-nos do início ao fim, seja pela energia dos círculos, pela cumplicidade sorridente dos an dros ou pela nudez das mazurcas. Tudo neles é simplicidade e beleza, rasgando o coração em tiras que deslizam docemente até ao chão.

Fica aqui convosco uma entrevista, realizada nos espaços existentes entre bailes, workshops e jam sessions, onde falam um pouco mais de si.

 

 

por Sara Riobom 

Comecemos pela habitual pergunta: como nasceram os Naragonia?

Toon (ele): A formação dos Naragonia está directamente ligada ao Andanças. Koen D’hondt, um amigo comum a ambos, ligou-nos dizendo que ia ao Andanças fazer workshops e que conseguia que lá actuássemos, se tivéssemos um reportório…

Pascale (ela): Mas nós não nos conhecíamos até dois meses antes da formação dos Naragonia.

 

E o que significa Naragonia?

T: O nome foi uma escolha da Pascale.

P: Há várias explicações para esta palavra. Naragonia é uma palavra inventada que simboliza a terra imaginária dos trovadores da Idade Média. Por outro lado, nessa mesma época não havia tratamento para as pessoas mentalmente doentes (não havia psiquiatras nem nada do género), então havia uma prática comum para se livrarem delas: metiam-nas num barco e diziam que iam ser enviadas para Naragonia, um sítio onde iam ser curadas. Mas essa terra não existia, na realidade o barco afundava-se.

 

Já tocaram ambos noutros projectos anteriormente. Quais são as influências que cada um traz para os Naragonia?

P: Não acho que sejamos influenciados pela nossa experiência noutros grupos – até porque só começámos a tocar música "de baile" nos Naragonia.

T: Sim. No início as nossas principais referências eram as músicas do centro de França. Mas de um modo geral somos principalmente influenciados por outros músicos, como os britânicos Blowzabella.

 

Há quem diga que a vossa música remete para a natureza. Outros, para a vida comunitária das pequenas aldeias. Verdadeiramente, o que é que vos inspira, o que é que vos impele a compor?

T: Essa é uma questão difícil de responder para a maior parte dos músicos. Eu diria que somos inspirados pela música em si.

P: Nós compomos muitas peças que depois pomos de lado. Muitas pessoas pensam que é um processo longo e custoso, mas às vezes compomos uma música em cinco minutos. É simplesmente algo que vem de dentro.

T: O importante é ter bastante tempo para tocar, e, a partir daí, tudo acontece naturalmente.

P: Provavelmente somos influenciados inconscientemente – pela música que ouvimos, pelas experiências que já tivemos – mas quando compomos não pensamos num assunto específico. Acontece-me por vezes estar a tocar e pensar "este swing ia mesmo bem numa scottisch" – e já está!

As melhores músicas aparecem quando nem sequer estamos a pensar nisso. Não vale a pena focarmo-nos nisso. Estamos a tocar e, simplesmente, acontece.

 

 

Falemos agora do processo criativo. Compõem as músicas em conjunto ou há, de alguma forma, uma "divisão de tarefas"?

P: Separadamente.

T: É verdadeiramente difícil compor com alguém.

P: Geralmente compomos uma música sozinhos e, se o outro gostar, arranjamo-la juntos. O resto das músicas ou tocamos noutros projectos ou então deitamos fora.

 

Qual a importância da dança quando compõe?

T: A dança é essencial. Mais de 90% das músicas que tocamos são "dançáveis" – de outro modo, não fariam sentido num baile.

P: Também compomos outro tipo de músicas, mas mantêmo-las para nós ou então aplicamo-las noutros projectos.

 

Têm tempo, oportunidade e gosto para dançar ou assumem-se apenas como músicos? Se dançam, o que vos faz sentir mais completos, mais pertencentes ao momento: dançar ou tocar?

P: Eu costumava dançar, mas actualmente já não o faço, porque passo a maior parte do tempo a tocar. Além disso, o prazer de dançar não é comparável ao de tocar. No entanto sinto que é bastante importante saber dançar – por exemplo, quando estou a compor uma mazurca, sei como se dança, sei o que se sente a cada momento – e esse conhecimento é essencial.

T: Eu simplesmente não danço. Quando danço não consigo ouvir a música. Quando tento fazê-lo quero parar para ouvir a música em todos os seus pormenores – e essa é a principal razão porque não danço.

P: Sim, mas tu sabes dançar.

T: Sei como dançar (pelo menos os passos base), mas sem elegância nenhuma. Na Bélgica cheguei mesmo a ganhar um prémio por ser o pior dançarino. Deram-me uma bota velha, fiquei tão orgulhoso. (risos)

 

 

O nascimento do vosso filho – o facto de agora serem pais – influencia de algum modo a vossa música?

T: Agora temos menos tempo para compor, e essa é a principal diferença. As peças mais profundas surgem quando tocamos durante horas a fio, e agora é difícil fazê-lo. Temos de organizar bastante o nosso tempo.

P: Mas a música em si não mudou.

T: A melhor coisa que nos podia ter acontecido era ter um filho, mas é difícil estabelecer uma relação entre isso e a música.

 

 

Como é que gerem a intersecção entre a vossa vida profissional e a pessoal?

T: Nem sequer pensamos nisso!

P: É um processo natural. Não ficamos constrangidos para criticar o outro quando o achamos necessário…

T: … o que é normal, somos pessoas diferentes, com gostos diferentes.

P: Mas sem dúvida que ajuda sermos casados. Sinto que se eu fosse casada com outra pessoa, e o Toon também, a nossa música não seria a mesma.

 

Vocês compuseram uma música em homenagem ao Andanças e aos amigos que lá fizeram. Por outro lado, devem ter a percepção que são das bandas mais acarinhadas pelo público português. Como explicam essa relação de proximidade com o nosso país, e como a vêem?

T: (risos) Temos consciência desse carinho e ficamos muito felizes, mas ao mesmo tempo achamos que é um fenómeno muito curioso, porque há tantos músicos bons! Penso que não tem só a ver com a música em si, mas também com o sentimento com que a fazemos.

 

 

Já editaram dois álbuns, tandem e janneke tarzan. O que significam os títulos? Sentem que existe uma grande diferença de um álbum para o outro ou foi uma evolução natural e suave?

T: Na nossa língua Tandem é a palavra que representa a forma que as duas libelinhas fazem, na capa do álbum. Quanto ao outro, conhecemos um agricultor que tinha um corvo que se chamava Janneke Tarzan, que eram as únicas palavras que ele dizia.

P: Quanto à segunda questão, os dois álbuns são bastante similares. É o mesmo tipo de música, de sentimentos… a principal diferença prende-se com os instrumentos tocados e com os músicos convidados. No primeiro álbum tínhamos o Grégory Jolivet na sanfona e o Philip Masure na guitarra. Já no segundo, juntaram-se a nós Wouter Vandenabeele (violino) e Maarten Decombel (guitarra), com quem formamos um quarteto.

 

 

O vosso quarteto (naragonia quartet) é pouco conhecido, pelo menos em Portugal. Poderiam explicar o porquê do nascimento dele? Veio colmatar alguma lacuna que sentiam existir nos Naragonia ou são projectos completamente distintos?

T: O quarteto foi criado para ter um som mais poderoso que o dueto. O reportório é o mesmo, mas o som obtido é completamente diferente, porque tem instrumentos distintos. No dueto podemos olhar um para o outro e decidir abrandar ou acelerar a música – o que a torna mais flexível, mas também não tão forte.

P: Na Bélgica, tal como aqui, os músicos deste meio conhecem-se todos. Cada um de nós já tinha tocado com o guitarrista noutras bandas, então formámos um trio. Começámos a sentir a falta de um violino, então ligamos para o Wouter- que é simplesmente dos melhores violinistas que conhecemos- a perguntar se ele sabia de alguém interessado em juntar-se a nós e ele disse "eu estou interessado!".

 

Para terminar, algum projecto para o futuro, que passe ou não pelos Naragonia?

P: Temos imensas ideias e ainda não sabemos bem as que iremos concretizar. Uma delas é fazer um álbum para crianças, com cd e livro. Também trabalharemos num reportório próprio para o quarteto, uma vez que este toca, basicamente, o reportório do dueto.

T: Eu estou a formar uma banda de música tribal (a filosofia é semelhante à dos NMB), com duas gaitas de foles e dois violinos. Quanto aos Naragonia, gostaríamos de fazer algo diferente, mas não lançaremos um álbum este ano.

P: Teremos de trabalhar mais e por mais tempo do que para o 2º álbum.

 

 

 

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Comentarios (10)add comment
Eu gosto de dançar, e, ao contrário do Toon, tenho sempre vontade de me mexer com a música; e dançar a ouvir a música é quando a dança sabe melhor. No entanto, neste Fest-i-Ball, por limitações de espaço ou por cansaço físico, fiquei várias vezes sentada na primeira fila apenas a olhar o palco...

«Penso que não tem só a ver com a música em si, mas também com o sentimento com que a fazemos.»
«No dueto podemos olhar um para o outro e decidir abrandar ou acelerar a música»

É uma cumplicidade deliciosa. Não foi só dançar, não foi só ouvir, foi também olhar... e, mais do que olhar a dança, foi também "olhar a música" Delicioso!
1

03 de Abril, 2008
picarote: ...
sabes cristina? eu adoro dançar e as vezes kd toca "akela" musica, penso logo: "esta tenho d ir mesmo dançar", como s a musica n podesse ser apreciada ou vivida tao intensamente sem a dança. a verdade é k ja tenho fikado apenas a olhar...e é tao delicioso. absorves a musica de maneira diferent mas igualment intensament. fikas a olhar e apreciar a meneira como as pessoas dançam, como elas vivem a dança, akele pequeno e fugas momento, e principalment como elas sao feliz nakele instant. parece k o mundo começa e acaba naquele lugar...tudo a tua volta torna s magico smilies/smiley.gif
2

03 de Abril, 2008
sara rio: ...
smilies/smiley.gif como te entendo, cada palavra!...

eu preciso de dançar quando ouço a música. faz-me sentir parte dela, commpletamente. nao dançar é morrer um pouco. só gosto de ficar quietinhas as xs na jam session, a ve-los tocar
3

03 de Abril, 2008
André: ...
Será que lhes invadimos o "mito" ao expôr as origens e a cumplicidade a dois?

Parabéns Sara, por teres concretizado desta forma o desafio que te lançamos.
4

03 de Abril, 2008
Alexandre: ...
Entrevista deveras interessante! E o mito vai continuar! Eles serão sempre adorados pelas nossas terras. Esta conversa mostra o outro lado das danças que muita gente não conhece (eu sou um deles); os músicos e a forma como criam música.
5

03 de Abril, 2008
sara rio: ...
hmm pergunta interessante andre! mas acho que a resposta é não. por varios motivos.

Neste mundo em que nos movemos, nao ha grandes fronteiras entre musicos e publico. entao, quem quiser tem facil acesso ao Toon e a Pascale, e essa possibilidade faz com que nao exista, desde logo, o mito do inacessivel. mas para mim, muito sinceramente, o mito nao esta principalmente neles mas sim na sua musica. falei com eles e o mito mantem-se, porque o que me fascina é a sua musica. na entrevista eles falam claramente da sua cumplicidade, sim... mas isso eles transpiram em palco, e é algo que os torna únicos. é algo que nos enternece. Por outro lado, a sua historia tao singular torna-os como que um "made in Portugal" muito bonito, o que ainda nos desarma mais. há tantos motivos para o nosso encanto...

ah! e obrigado meninos A's, fico muito contente por terem gostado smilies/smiley.gif
6

03 de Abril, 2008
Joanareis: ...
Gostei muito de ler a entrevista. Achei piada a expressão que tu usas-te "made in Portugal". Eu diria que eles são "made for Portugal".(Afinal o Toon não comentou que acha que eles devem ser mais famosos cá do que na Bélgica?) Para além de que, se é aqui que eles compõem músicas como aquele Hanter dro lindo (Calimero - 2º Cd, entre outras), então sem dúvida que deviam vir cá mais vezes! Já estou com saudades!
7

05 de Abril, 2008
Ah, e aquela ideia do álbum para crianças é lindíssima!
8

05 de Abril, 2008
kell: ...
é so fechar os olhos e deixar fluir... assim....tipo kd deixamos cair devagarinho a areia finhinha da praia no braço.... dão-nos (pl menos a mim) uma sensação de alegria...apetece-me sorrir.....
9

05 de Abril, 2008
sara rio: ...
joana, sim... made for portugal, definitely smilies/smiley.gif
10

06 de Abril, 2008

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