Catorze anos volvidos desde a sua formação, Galandum Galundaina trazem-nos novas melodias do planalto mirandês, no seu mais recente trabalho musical, Senhor Galandum. A moda que deu nome ao grupo vê agora a luz do dia, num momento de maior maturidade do quarteto mirandês. Com novas sonoridades, onde predominam a rabeca e a sanfona, este álbum traz também convidados de renome, como Sérgio Godinho ou Uxía. À conversa com Manuel Meirinhos, o mais jovem Galandum Galundaina, procuramos conhecer melhor o trabalho desenvolvido para a promoção do património cultural mirandês. O vosso trabalho centra-se nas sonoridades tradicionais mirandesas. Como procedem à pesquisa sonora? Nós vivemos a cultura tradicional desde sempre, com as pessoas da aldeia, com os nossos pais, com os nossos avós. A maior parte do nosso reportório foi-nos ensinada pela nossa [Manuel, Alexandre e Paulo Meirinhos] mãe, desde pequeninos. Para além disso, fomos contactando com outros gaiteiros e músicos de Miranda. É um ambiente musical que nos está no sangue, sempre vivemos com ele.
Para além das melodias tradicionais, as músicas de Galandum têm a característica de serem sempre cantadas em mirandês. Como procedem aos arranjos sonoros após as pesquisas? Como surgem as letras? Tentamos sempre a manter a música tradicional. A música Senhor Galandum, por exemplo, é uma dança tradicional muito bonita portanto procuramos manter o ritmo para que seja possível continuar a dança-la. Partimos das melodias tradicionais como base e tentamos embelezar as músicas e dar-lhes crescimento, para evitar que sejam monótonas. Também as letras são originalmente mirandesas e tradicionais. A excepção é a Coquelhada Marralheira, na qual convidamos o Sérgio Godinho para cantar connosco - demos-lhe a letra tradicional e a partir daí ele desenvolveu a letra dele em português, falando de alguém que vinha de Lisboa para confirmar a história tradicional. Apesar da importância do processo de pesquisa empírico, através do ambiente familiar, todos os elementos do grupo têm uma formação musical mais abrangente. Qual? Tanto o Paulo Meirinhos como o Paulo Preto completaram o conservatório, um em guitarra e o outro em canto. O Alexandre Meirinhos estudou na Escola de Jazz. Todos eles são actualmente professores de música. Eu sou autodidacta em muitos instrumentos, nomeadamente nos tradicionais, no entanto também tive formação musical mais diversificada – o meu primeiro instrumento foi o baixo eléctrico. O nosso conhecimento musical não se limita à música tradicional. Trabalhar o património cultural transmontano é uma casualidade provocada pela vivência desse ambiente ou implica uma intenção clara de divulgação? Galandum é um grupo mirandês. Trabalhamos exclusivamente com uma pequena zona de Trás-os-Montes – concretamente Miranda do Douro. A nossa intenção é mostrar a toda a gente a cultura mirandesa. Até agora não existe um trabalho específico na área das danças. Além das melodias tradicionais já pensaram em convidar alguém que ensine as danças antes ou durante os espectáculos? Há já algum tempo que fazemos workshops de dança dos pauliteiros. Workshops de danças mistas nunca se concretizaram, pois é necessário alguém que conheça bem todas as danças. No entanto esse tipo de trabalho depende muito do ambiente: no Andanças, por exemplo, faz todo o sentido, há outros ambientes em que não. Para além do trabalho de produção musical, Galandum constituíram Associação Cultural. Que trabalho têm desenvolvido nessa área? Em primeiro lugar procuramos alertar o público para a existência da cultura mirandesa e estimular o seu desenvolvimento, tanto da língua como da música. Organizamos a comissão para a padronização da nossa gaita-de-foles: é importante a partir do momento em que há muitos gaiteiros. A gaita mirandesa sempre foi uma gaita desafinada, cada uma com uma afinação diferente. Comprometemo-nos a preparar uma gaita para que todos possamos tocar juntos. É mais um meio de desenvolver a cultura mirandesa, ao torná-la mais global e acessível. Para além disso, organizamos o festival l burro i l gueiteiro, que procura levar ao público o conhecimento tradicional e recuperar o burro mirandês, em conjunto com a AEPGA. Este álbum traz algumas novidades, nomeadamente as colaborações de diversos músicos conceituados, como Sérgio Godinho, Uxia ou Peixoto. Como surgiram estas colaborações? No fundo não é uma novidade, pois já no álbum anterior tínhamos convidado amigos nossos. Procuramos convidar pessoas com quem temos prazer em tocar e que podem acrescentar algo de novo à nossa música. O Sérgio Godinho e a Uxía são casos especiais, que sentimos que se adaptavam àquelas músicas. Sentíamos que a Coquelhada Marralheira se adaptava à voz do Sérgio Godinho, que fazia falta aquela voz. A Uxía é uma das melhores vozes da Península Ibérica, por isso decidimos convidá-la para La Galhina, uma cantiga de embalar. Nessa música há também a colaboração de Eliodora Ventura, mãe de três dos músicos de Galandum… A nossa mãe cantava-nos essa música para adormecermos quando éramos pequenos. Foi dela que aprendemos grande parte do nosso cancioneiro e tem estado sempre presente, a motivar-nos e a dar-nos sugestões. É uma das mentoras de Galandum. A incursão pela música electrónica, com a nova versão de nabos é uma tentativa de tomar as pistas de dança? Acreditam que o folk em Portugal poderia resultar, como acontece no Boombal da Bélgica, não só nos bailes mas também nas discotecas? Não temos a pretensão de entrar nas discotecas. Pessoalmente, gosto muito de música electrónica evoluída. Os instrumentos electrónicos já têm alguns anos, são actuais e a música tradicional não pode viver no passado - «Tradição é a passagem do fogo e não a veneração das cinzas». A nossa intenção é apenas produzir um som novo, que possa chegar a pessoas que não estão habituados a este tipo de música. Há algumas discotecas onde é possível passar, mas a intenção não foi essa, mas sim divulgar música tradicional com um ambiente actual. O novo álbum traz-nos uma maior diversidade de influências, que se manifesta também no maior leque de instrumentos, como o realejo, o bouzouki e a rabeca, com uma predominância clara desta última e da sanfona sobre a gaita-de-foles. Quais são as novidades? Como se deu a integração? Quase todos os instrumentos que tocamos estão presentes na cultura mirandesa, com excepção do bouzouki. Tocamos pela primeira vez com o Peixoto no México, num festival em que estivemos com os Dazkarieh, sentimos que podia trazer algo de novo à nossa música e decidimos chamá-lo para este álbum. Não queremos ser puristas ao máximo e bloquear a música àqueles instrumentos tradicionais, mas sim ir abrindo e englobando mais coisas. A rabeca não surge referenciada no cancioneiro como um instrumento mirandês, no entanto há registos da sua presença na nossa cultura. Quando o Paulo fez a primeira rabeca houve de imediato várias pessoas de mais idade que reconheceram e recordaram antigos tocadores – foi como um processo de pesquisa invertido. Para além disso procuramos adaptar – desde garrafas a colheres de pau – o que, aliás, faz também parte do processo tradicional. Estamos a falar de uma região pobre, não havia dinheiro para comprar instrumentos especializados - mesmo a gaita-de-foles era muitas vezes construída pelos próprios tocadores – por isso, qualquer coisa servia para produzir música: mãos, pés, garrafas…Tentamos potencializar ao máximo esses pequenos instrumentos. Alguns desses instrumentos são construídos pelos elementos do grupo. Podes explicar esse processo? Quais as características específicas? Sim, construímos alguns dos nossos instrumentos. No meu caso, por exemplo, fiz uma flauta de osso de grifo, quando um amigo meu que recolhe animais mortos (electrocutados, envenenados, etc.) me deu os ossos. É um osso oco por natureza e que permite dar outras tonalidades diferentes das convencionais. O Paulo Meirinhos faz as rabecas e o Alexandre as caixas de guerra. Durante muito tempo tocávamos com a caixa de guerra original do nosso avô [Alfredo Ventura], mas com a rodagem o Alexandre sentiu necessidade de construir uma cópia exacta e a partir daí começou a fazer mais e a recuperar. Há ainda os pandeiros (adufes), que o nosso avô também fazia e agora é o Paulo Meirinhos que faz. O pandeiro mirandês tem todos aqueles formatos invulgares (triangular, hexagonal, losangolar), como inovação o Paulo teve a ideia de meter uma câmara-de-ar para podermos esticar a pele e tocar mesmo quando há mais humidade. Não construímos gaitas, mas temos amigos que o fazem e estamos a trabalhar com eles para a normalização.
Têm já alguma projecção no estrangeiro, com espectáculos em Espanha, Alemanha, Bélgica…como sentem essa realidade? Que diferenças em relação à recepção em Portugal? Acaba por ser a mesma coisa, no sentido em que mostramos uma cultura de uma zona muito particular de Portugal. Se por um lado lá fora só conhecem o fado, em Portugal há muita gente que quando pensa em gaitas-de-foles pensa nas escocesas, sem saber que também existem em Portugal. Procuramos que os nossos concertos sejam pedagógicos, que as pessoas passem um bom bocado e aprendam algo sobre outra cultura. De que forma essas experiências influenciam o processo criativo? Antigamente a música tradicional tinha um propósito específico: havia músicas de embalar, de trabalho (de ceifar, de cardar), de animar os pauliteiros e fazer a festa. Nos concertos é um ambiente diferente: temos de estimular no público o interesse por aquilo que estamos a divulgar, sem que seja enfadonho. Os ranchos montavam todo o ambiente no palco, representavam tudo fielmente. Isso está bem, mas não para o ambiente de concerto - torna-se repetitivo e monótono. Na nossa música procuramos mudar de instrumentos, de tonalidades…como disse anteriormente procuramos potencializar ao máximo os instrumentos para criar um espectáculo estimulante para o público. Depois do lançamento oficial no dia 19 de Dezembro no Porto, apresentarão o novo álbum no dia 23 de Janeiro em Fuonte Aldé, aldeia dos três irmãos Meirinhos. Que projectos nos reservam para o futuro? Divulgar o álbum e continuar a divulgar a música mirandesa e os seus instrumentos. Esperamos poder continuar também com o festival l burro i l gueiteiro. Dentro de um ou dois anos gostaríamos de fazer um álbum de música religiosa tradicional mirandesa, mais uma vez, uma sugestão da nossa mãe. Os Galandum Galundaina oferecem o Senhor Galandum às três primeiras pessoas a completar o dito mirandês (dica: escutem o tema publicado aqui ao lado no leitor): La casa dl cura num ten mais que ua cama an la cama drume l cura donde conhos...
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