Entrevista aos Uxu Kalhus - III PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Sábado, 04 Abril 2009 21:12

Publicamos agora a terceira [primeira] [segunda] e derradeira parte da entrevista aos irreverentes Uxukalhus. Esperemos que concordem que fecha com chave de ouro.
 
8.  Falando agora do novo cd… guiem-nos pelos capítulos do Transumâncias Groove.

transumancias_groove_capa_360TZ: Reunido o material de estúdio, havia necessidade de dar uma ordem ao disco. À música X deverá corresponder a faixa Y. Curiosamente, salvo raríssimas excepções, a ordem do disco foi consensual entre os membros da banda e dessa ordem saíam linhas de força que agrupámos por capítulos.

O capítulo 1 [Transumâncias Extremas] reúne uma Tammurriata da Serra do Caldeirão, uma Saia da Carolina, um Círculo e uma suite de Mazurkas. Músicas e danças de  Latitudes e longitudes extremas anunciam a partida e dão início a este baile improvável.

O capítulo 2 [geografias marcadas] [VAC1] propõe uma passagem por geografias diversas, nem sempre horizontais, com danças de pares e de grupo, para ajudar no caminho e desfrutar das paisagens marcadas por rios, mares, ilhas, desertos e pastagens. Na mochila, umas saias do Manuel do Rio, uma suite de funanás e uma chapelloise ibérica arrumam-se com o farnel do viajante.

No capítulo 3 [Trilhos da Lusofonia], o mais extenso, agrupam-se uma suite de valsas populares e eruditas em co-existência pacífica e com contornos de cumplicidade, um corridinho da bela serra do Arestal, um “energizante” Vira do açúcar, um momento de reflexão para descansar os pés quentes/dormentes e exercitar a mente em conversa sobre estas questões da viagem e ainda uma carvalhesa com gaita transmontana, desafinada por natureza, a dar por finda a transumância por latitudes e longitudes improváveis.

No encore, momento ainda para uma fusão extrema, com o hip hop a juntar-se ao folc na leitura da urbanidade, reforçando a ideia de que este último, o Folc, “pode ser actual e contemporâneo – não necessariamente delicodoce!” PP: mesmo a Bónus Track encaixa neste capítulo, com o Rap em português a ser o mais moderno trilho da nossa Lusofonia.

9. Como foi construído, em termos de arranjos dos temas?

PP: Os arranjos foram construídos em ensaios, ao vivo e em estúdio. Corresponde a uma forma muito particular que temos de trabalhar, onde cada um se expressa com total liberdade. O resultado está aí nem à vista, e a sonoridade do CD corresponde a um colectivo muito forte. Neste CD tivemos também a preciosa ajuda de Marco Jung, que produziu e melhorou alguns temas, sem nunca interferir com a “linha editorial” do grupo; pelo contrário, potenciou as qualidades e eliminou defeitos. Grande Marco!

TZ: Ao contrário de algumas bandas, quando fomos para estúdio tínhamos apenas uma ideia do que queríamos fazer. Havia já algum material original e versões de temas (como a Saia da Carolina) que foram surgindo nos ensaios, nos testes de som e em outros lugares igualmente estranhos onde nos encontramos. O estúdio é uma excelente oportunidade para experimentar e exercer a liberdade criativa. Foi isso que fizemos. Criámos as estruturas base e cada um fez praticamente aquilo que lhe ditava a sua consciência na altura. Salvo raras excepções, gravámos a bateria e o baixo (conforme gravação de ensaio em tarde solarenga na casa do Paulo, entre choro e riso de crianças e uma vista fabulosa sobre a Serra da Arada) e os temas foram ganhando forma a partir daí. Gravámos no Marduc Studio, Trabalhia – Caldas da Rainha, um espaço relativamente isolado, bem apetrechado, com cozinha, sem relógio de parede e um “homem dos botões” que acabou por ser mais um elemento da banda em gravação, o Marco Jung – excelente músico, técnico e membro oficial da família Uxu! Os arranjos também lhe pertencem, foi parte muito activa no processo. Outro factor importante tem a ver com os músicos convidados, que foram preenchendo espaços e contribuindo para o resultado final do disco. Sabíamos os ambientes sonoros que queríamos para cada um dos temas, conhecíamos as pessoas indicadas para o efeito e, que casualidade, a esmagadora maioria fazia parte do nosso grupo de amigos…

10. Porque abandonaram o conceito do CD objecto de colecção que construía a capa da Revolta?

PP: Porque a outra capa deu-nos um trabalho imenso, que é impossível voltar a repetir. Assim o 1º CD fica efectivamente como peça de colecção. Este tem a vantagem de ser muito mais barato!

TZ: Por termos passado horas intermináveis a montar CD’s à mão e o que gostamos mesmo de fazer é … tocar! Nem imaginas o alívio que é quando queres um CD e ele está pronto, nas tuas mãos, para fazeres dele o que quiseres. A manifesta falta de tempo dos dias modernos implica concessões, para que as acções não sejam postas em causa, foi o que fizemos. De qualquer das formas e apesar do pouco tempo e algumas falhas de processo, que se prendem também com alguma inexperiência nossa em várias matérias, uma nota positiva e de agradecimento à Cátia Mendonça que se disponibilizou, desde a primeira hora, para fazer, em conjunto com a banda, todo o trabalho de design e arte final que resultou num produto claramente de “marca” UXU, com R no canto superior direito e tudo!

11. Como porta-bandeira de novas formas de interpretar os temas tradicionais, não estão a repetir nestas transumâncias a mesma receita da revolta?

PP: De forma alguma; há duas grandes diferenças: 1ª diferença, na revolta fizemos arranjos de danças portuguesas tradicionais, neste CD compusemos danças Portuguesas; a 2ª diferença é que temos duas danças de Grupo Folk (círculo e Chappeloise), o que não existia no 1º CD. De resto, a nossa postura é a mesma, e no fundo o que fazemos é aprofundar o trabalho começado com a revolta. Claro que a receita terá sempre a mesma génese criativa: o baile, os ritmos de danças, a lógica do movimento dos corpos é a nossa matéria prima para a construção das músicas.

TZ: Uxu Kalhus são um organismo vivo, em constante mutação, e na procura de caminhos para a construção de uma identidade sonora dinâmica e “desempoeirada”. A banda vive de quem a habita e de quem a visita, sem pretensão de criar receitas, por mais abertas que sejam, como bases para uma qualquer sopa de legumes. Não creio que o Transumâncias repita a mesma “fórmula” do primeiro disco, na medida em que há novos intervenientes no processo, novas histórias de permeio e mesmo métodos de trabalho diferentes. No entanto, há uma filosofia de grupo e desse ponto de vista, o resultado final acaba por espelhar aquilo que pensamos e a maneira como lemos o que nos rodeia. Se há um fio condutor entre o primeiro e o segundo disco, que aponte no sentido da construção de uma sonoridade própria e característica do grupo, isso deixa-nos naturalmente felizes e satisfeitos com o nosso trabalho.

12. Finalizando: o que vos move?

PP: Para além da nossa carrinha periclitante, move-nos o prazer de tocar juntos. Só isso motiva as constantes travessias de Portugal quase todos os fins de semana; e claro, poder viver da música, mas este motivo sozinho não chegava.

TZ: Paixão, música, liberdade, identidade.
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