Entrevista aos Uxu Kalhus PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Sexta, 20 Março 2009 18:52

uxu6_b_360Divertidos, apaixonados, frontais. Irreverentes e sem grande respeito pelas normas vigentes, fazem da dessacralização do que é nosso um porta-bandeira e do baile a fonte que os inspira. São, afinal, extraordinariamente simples. Convosco, os Uxu Kalhus, numa entrevista que, por demasiado grande, dividiremos em três partes, uma por cada semana.

 

1.  Antes de mais, falem-nos da origem dos Uxu Kalhus. Quem são, como se conheceram, o que vos juntou.


Paulo Pereira (PP): Eu dava aulas de dança em Évora em 1998 e conheci a Celina; tinha acabado de deixar os Bailia, e formámos um duo que se chamava CPPP (Celina Piedade + Paulo Pereira). O Repertório era essencialmente música dita Europeia. Rapidamente o duo passou a trio (com o Winga) e mais tarde, em 2000, houve um convite para ir a Gennetines fazer um baile Português. Nesse momento juntou-se à banda o Vasco Casais, porque achávamos importante ter cordas no grupo. Portanto, na realidade os fundadores d’Uxu Kalhus foram quatro: Paulo Pereira, Celina da Piedade, Winga e Vasco Casais. Foi nesse ano que efectivamente nasceram Uxu Kalhus, baptizados pela Margarida Moura, que também foi a França para ensinar as danças. Mais tarde entrou o Eddy (2002) e depois o Miguel Casais (bateria) e Hugo Menezes (percussão).

O Hugo entretanto saiu, e foi este sexteto que gravou em 2004-2006 a Revolta dos Badalos. A Joana Negrão por um breve período de tempo também fez parte da banda, e desde 2006 saíram o Vasco Casais, o Miguel Casais, o Winga e agora a Celina, sempre por incompatibilidade com outros projectos (Dazkarieh, DZRT, Blasted Mechanism e Rodrigo Leão). Em 2006 (final) entrou o Tó Zé (guitarras) e o Luís Salgado (bateria) e os mais recentes membros da banda são o André Lourenço (teclas) e Joana Margaça (voz), que entraram em 2009. A verdade é que se mantivéssemos a formação original, Uxu Kalhus hoje em dia não tocavam, por manifesta incompatibilidade de agendas com os projectos citados…

 

Tó Zé (TZ): Eu sou um “cristão-novo”. Conheço o grupo há muito tempo, mas só fui “evangelizado” em 2006, com um convite surreal por meio telefónico e em manhã submersa, tão ao jeito dos membros da banda com filhos madrugadores… Conhecia o Eddy dos tempos das muitas e variadas bandas de garagem da fervilhante “cena eborense” dos anos 90, em que militámos ambos activamente. Conhecia a Celina das muitas músicas onde andava e conhecia o Paulo pela Pé de Xumbo (na altura, trabalhava na Div. de Cultura do Município de Évora e havia uma relação de proximidade com a Associação, que desenvolvia já uma actividade importante na cidade e no concelho). Conhecia também o Vasco, mais até pelos Dazkarieh e porque me apareceu numa bela tarde solarenga na extinta “Fábrica da Música” com uma gravação dos Daz.; sabia quem era o Nuno, ainda antes da metamorfose para Winga (tínhamo-nos cruzado algumas vezes, quase sempre em situações improváveis) e conhecia o Hugo (Mandinga) pelo seu trabalho em diversos projectos e também, salvo erro, como programador da ZDB. Em 2005, se não estou em erro, a Pé de Xumbo organizou uma residência de Músicos na Herdade da Marmeleira (Évoramonte) e eu, vindo do funk-rock-experimental-o-qualquer-coisa, meti férias da função pública e tive oportunidade de trabalhar com um grupo de músicos “a sério” e filiados na folc e no movimento das danças, entre eles estavam os Uxu… do outro lado da linha, diziam-me que a banda estava num momento de mudança e perguntavam-me se queria participar. Respondi que sim, sem saber bem ao que ia. Mais tarde, consciencializei o processo e perguntei-me como é que um pseudo-músico-dos-tradicionais-três-acordes-do-rock podia “sacar” tantos temas a “mil à hora” e em tão pouco tempo. Liguei de volta. Ninguém atendeu. Fui conhecer os temas à Nazaré, em agradável sábado de sol do Oeste e fui ensaiar à Reca (onde se juntou o companheiro Luís Salgado, Bateria). Primeiro e único ensaio antes da digressão da “Revolta dos Badalos Tour”…

 

2.  Os membros da banda provêm de diferentes quadrantes musicais. Como conjugam todas essas influências?

PP: Com total liberdade; ou seja, cada um expressa-se a 100% (ou quase, na banda). É essa a nossa riqueza por isso não tem sentido mudar essa filosofia.

TZ: Uxu Kalhus vivem justamente dessa diversidade. A banda é a soma das partes que, muitas vezes, supera o todo. Orgulhamo-nos de ter uma secção barroca a tocar com a “dark force” do jazz-metal, com inputs de funk-rock a soar a arfro-swing de tradição europeia. Isto é música portuguesa… de fusão.

3.  De que fora vos recebem e vos vêem lá fora? Mudam alguma coisa na vossa postura por causa desses factores?

PP:
Não. Somos sempre iguais a nós próprios, independentemente do público. Nunca cedemos a pressões para traçar o nosso caminho.

TZ: Temos exactamente a mesma postura em qualquer lugar do mundo. Somos o que somos: “what u see is what u get”! Não preparamos exaustivamente os espectáculos nem escrevemos os “set’s” nas toalhas de restaurante. Quando subimos ao palco, sabemos apenas que vamos fazer a festa; decidimos entre temas o que vamos tocar a seguir e improvisamos muito, sempre que nos apetece. Com isto, respeitamos quem decide abandonar o conforto do lar para se deslocar aos nossos concertos/bailes -, damos o que temos e o que somos verdadeiramente. E somos assim: um misto de rigor e improviso, com muita energia! Lá fora há muito mundo. Até agora, temos tido recepções e reacções calorosas em actuações para muitos pés e em lugares tão distintos e distantes como a Alemanha e Macau ou em salas ocupadas com pouco mais de uma dezena de almas, como aconteceu num bar galego “sitiado” numa pequena localidade ribeirinha.

 

celina piedade4. Como lidam com a saída da Celina, um dos elementos mais carismáticos da banda e provavelmente o mais acarinhado pelo público?

PP: Perdemos a Celina, ganhámos em banda. Continuamos todos amigos, como também acontece com o Vasco Casais ou com o Winga; mas para chegarmos mais longe, amadurecermos como banda e termos disponibilidade para tocar sempre que nos solicitam, esta era a única solução. O importante é que a amizade continua, e concerteza que haverá muitas oportunidades para tocar com a Celina, dentro d’Uxu Kalhus (Uxu Big Lula, etc.) nas jams, em duos, trios e o que mais for. Para fora, tenho a certeza que o que fazemos ao vivo irá cativar as pessoas na mesma. E neste momento, pelas reservas e datas marcadas (até agora mais de 40), a solução encontrada parece-nos ser a mais acertada para podermos evoluir como grupo e podermos ser músicos profissionais.

TZ: Uma banda é um colectivo de pessoas, não depende, pelo menos em teoria, da inspiração e transpiração de uma só. Como colectivo, trabalhamos todos para o todo. A saída de um elemento, seja mais carismático ou não, é sempre um momento de mudança e pode ser encarado como um “handicap” ou como uma oportunidade de renovação (qualquer semelhança com a crise económica é pura coincidência). A Celina foi fundadora do grupo (com o Paulo), é uma grande “Música” (assim, no feminino), para além de uma amiga. Como tal, é um elemento incontornável na história da banda. Mas ninguém é insubstituível e, com a saída da Celina, os Uxu Kalhus renovaram-se e ganharam um respeitável cravista/baixista e uma voz quente na linha da frente. Somos sete: André – teclas e vozes, Paulo – flauta e vozes, Tó-Zé – Guitarras e vozes, Eddy – Baixo e vozes, Luís – bateria e percussões, Joana – Voz principal e Samuel – Som e vozes surpresa. Mas ninguém sai verdadeiramente d’Uxu Kalhus -, somos uma grande família e “uma vez badalo, para sempre badalo!” A prová-lo, está a ficha técnica do novo CD, onde figuram actuais e antigos membros oficiais da banda, todos próximos, embora a militar activamente em diferentes projectos. Como todos os que passaram por aqui, estou certo que nos encontraremos com a Celina sempre que possível e quando isso acontecer far-se-á uma festa, a celebração do encontro dos badalos!

Comentarios (2)add comment
antonio augusto matias: ...
uma vez badalo, badalo para sempre. Celina foi mas está lá. UXU power!
1

21 de Março, 2009
Parabéns pela entrevista! Até à próxima parte, porque abriu o apetite para mais.
2

23 de Março, 2009

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