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Só lá vou com cantigas PDF Imprimir e-mail
Escrito por Administrator   
02-Set-2007

“A minha saia velhinha

Toda rotinha de andar a bailar

Agora tenho uma nova,

feita na moda para estrear.”
(Cantiga da Sacha, recolh. Minho,

antologia: Povo que canta)

por: Tânia Silva, autora do tricontando.blogspot.com

minha saia velhinha

 

Acabaram-se as férias. Regressar ao ritmo monótono dos dias de trabalho urbano e esquecer bailes, concertos e festivais vai ser difícil. Porque não fazer como os camponeses de outrora e ir de pasta na mão, no autocarro, encher os cantos mais bafientos dos nossos gabinetes com belos timbres de cantigas de trabalho?

Perante o meu estado depressivo, já comecei a ensaiar algumas e uma destacou-se no meio de todas.

Ao ouvir esta cantiga tradicional não posso deixar de sorrir ao contraste entre o som de cavar a terra dura e o lirismo doce da letra. Como é que este bando de mulheres persistentes, de sachola em riste, gotas de suor a espreitar em cada poro ainda tem ânimo e energia para entoar uma canção deste teor?

Excitação com a abertura da nova Mango? Crise de ansiedade pela próxima “ladies night”? Não, algo muito diferente: Descobriram o poder da arte. Normalmente as grandes descobertas e avanços na História da Humanidade são feitas nas situações mais adversas. É também sabido que a espécie humana tem como forma de alienação a música, a poesia, a dança e tantas outras formas artísticas.

Para estas mulheres, uma forma de aliviarem as “duras penas” é o canto, canto esse que evoca um baile. Duplo alheamento, portanto. Nem a ceifeira de Pessoa chegou a tanto.

Para quem canta e para quem dança o Tempo é redimensionado. O tempo cronológico suspende-se e nós, quais arquitectos do novo universo recriamos um novo espaço e um novo tempo. O nosso corpo reparte-se pelo espaço ao sabor do desejo de dançar –mais ou menos agitado- e aí concebemos o infinito. Rasgamos o ar, o chão, o salão (e a saia) em busca da libertação do corpo e a explorar o espaço imaginado, que nunca acaba, que é um jogo de cruzamentos com outros corpos aspirantes da mesma liberdade.

Este conceito não é pêra doce, há quem o descubra na Matemática, outros na Religião, infelizmente nunca foi o meu caso.

A minha professora de Matemática (daquela matemática mais abstracta -porque até à escola primária a Dª Alda dava-nos problemas concretos sobre pessoas remediadas-) assustava-nos com o seu assobio de trabalhador de andaime durante os exercícios de gente alguma. E o meu catequista era um talhante que aos Sábados nos dizia que Deus era muito grande e estava em todo lado, entre muitos outros super-poderes, quando num aziago dia de semana, descobri que o meu catequista empunhava facões e machados para esventrar vacas e porcos. 

O mundo era muito pequeno: começava no som estridente do silvo da Profª Manuela Borges e acabava na mancha de sangue do avental do Srº Tomé.

Mais tarde o mundo cresceu consideravelmente, enchi-o de palavras, mas sentir o infinito, ah isso, só lá vou com cantigas…

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Comentarios (2)Add Comment
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escrito por cristina, Setembro 13, 2007
Eu é mais danças... Mas olha que aquela Matemática de exercícios de gente alguma, também tem os seus encantos smilies/wink.gif

Gostei muito do texto. E eu também tenho esse "Povo que canta"... Transposta-nos, de facto, para outro espaço, outro tempo, outras preocupações, outras libertações,...
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escrito por MJHMG, Abril 20, 2008
LOL LOL smilies/grin.gif

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Actualizado em ( 04-Set-2007 )
 
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