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Músicas sem Fronteiras V PDF Imprimir e-mail
Escrito por Administrator   
25-Jul-2007

1ª parte do artigo

2ª parte

3ª parte

4º parte

por: Marta Poiares

A surdez dos media

world musicNo blog Crónicas da Terra, especializado em world music, pode ler-se: “Nunca, como agora, estas músicas foram votadasn ao ostracismo pela imprensa nacional musical. Ora porque os jornalistas que realmente se interessavam pelo assunto deixaram de escrever sobre música, ora porque os que estão em actividade já não estão para aqui virados, ora porque as estratégias editoriais das publicações pura e simplesmente ignoram uma das mais profícuas e intensas áreas de edição musical”. Quem o declara é Luís Rei, responsável pelas Crónicas.

De facto, são poucas as referências à world music nos media portugueses. No passado ano de 2006, Vasco Sacramento e Luís Rei tentaram contornar a situação de mudez jornalística e lançaram a W, revista dedicada ao tema músicas do mundo. Chegou a haver “um tímido ‘chega p’ra cá’ da W - publicação da SET distribuída com o jornal Público. Publicação essa, que dava a conhecer tantas edições, concertos e festivais que, às tantas, ficávamos atónitos e “perdidos” na rota dos nossos interesses. Perdidos, mas com a clara noção que, afinal, não conhecemos assim tanta coisa e o caminho a seguir é ficarmos disponíveis para receber e, quem tem essa facilidade ou função, dar a conhecer a qualidade dos músicos nesta aldeia global” recorda Raquel Bulha. No entanto, por motivo de escassez financeira, a revista chegou ao número dois e por aí ficou. Vasco Sacramento promete um futuro e ansiado regresso à W.
O cenário parece não ser assim tão negro quanto isso. No mundo radiofónico e cibernético, há um número considerável de espaços que não ignoram world music. Carlos Seixas lembra que a RUC, a Rádio Urbana, a Antena 2 e a Antena 3 são exemplos de rádios que incluíram programas dedicados à world music, como o Artesanato Sonoro, o Multipistas ou o Plan3ta. “Há alguns programas de rádio e um nichozinho na net com alguns blogs que se dedicam em exclusivo à world music, como o Crónicas da Terra, o At-Tambur e alguns outros”, conta, também, António Pires, autor do blog Raízes e Antenas.
Jorge Costa é um pouco mais crítico, reafirmando que a indiferença relativamente às músicas sem fronteiras, está exposta não só nas publicações culturais, como nos meios de comunicação em geral. “Em Portugal continua a olhar-se com alguma desconfiança para os géneros musicais mais orgânicos e apegados à terra. É inconcebível que a Antena 3, uma rádio estatal destinada a um público jovem, à revelia do que acontece com as restantes congéneres europeias, se dê ao luxo de ter apenas uma hora de músicas do mundo por semana (0,6 por cento da sua programação!). É completamente residual e uma afronta aos portugueses que todos os meses são obrigados a pagar a taxa audiovisual”, critica, indignado.
Fruto da insuficiência de atenção dos media relativamente à world music, é uma espécie de ostracização deste género menos mainstream. Como nos garante Claudino Ferreira, “os críticos e a imprensa têm um poder de filtragem. O que o João Bonifácio, por exemplo, coloca no Y (suplemento cultural do Público), vende ou deixa de vender, mas aparece. São intermediários decisivos” na visibilidade de qualquer produto cultural.
Raquel Bulha mostra-se pessimista: “O consumo de massas não passa por aqui e, como tal, a divulgação segue a ditadura de massas. Sempre foi assim e tudo leva a crer que assim continuará”, conclui, de travo amargo na voz.

All music world


A world music é construída sobre o (aparentemente) trémulo pensamento de que a cada dia que passa, se fazem novas descobertas sonoras, se dedilham novos mundos ou se vislumbram velhos mundos desconhecidos. Tão trémulo que a etiqueta pode cair? Na opinião de André Dias, a queda está longe de acontecer. “Implicaria o fim do mercado. Seria uma anarquia. Não haveria rótulos, mas também não haveria identificação pessoal entre vivências e música. Hoje, posso ter acesso a qualquer música do mundo, mas continuará a ser estranho ouvir um aborígene a fazer música com sons da natureza. As diferenças existirão sempre. A estranheza não desaparecerá”.
Susana Sardo diz ser impossível traçar o futuro das músicas do mundo. “Sabemos quando começa, mas não saberemos quando acaba. A música sempre teve tendência para se misturar, mas nunca com tamanha intensidade e rapidez”, justifica-se a etnomusicóloga.
Alexandre Lemos já não acredita tanto no “mito” de encontrar algo de novo a partir das músicas do mundo. “Eu gostava que tivesse fim à vista e que fosse substituído pelo fenómeno all music e não world music. Depois de todas as vezes que foi dito “eclético”, sem querer dizer eclético, era engraçado dizê-lo a querer dizê-lo”. E conclui, em tons utópicos: “Teria muito mais interesse que um disco tivesse ao lado de outro, sem rótulos que os separassem”.
Por que não? É assim que a música existe nas nossas vidas. Lado a lado, numa mesma prateleira.
(fim) 
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Actualizado em ( 18-Jul-2007 )
 
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