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Músicas sem Fronteiras IV PDF Imprimir e-mail
Escrito por Administrator   
20-Jul-2007

1ª parte do artigo

2ª parte

3ª parte

por: Marta Poiares 

Tornar global, o local

world musicNos dias de hoje, tanto podemos ouvir uma música do Mali, como as vozes da república de Tuva ou mesmo uma gravação nova do século XVI, com instrumentos da época. Para Claudino Ferreira, esta glocalização é uma conquista premente: “É a verdadeira descentralização da cultura, o que é, indubitavelmente, muito importante”.
A viagem musical é, na opinião de Jorge Costa, “tornada possível pelas redes globais de comunicação”. Para o locutor, é um passo revolucionário, dado que “o multiculturalismo e as identidades culturais minoritárias ou de menor expressão tiveram finalmente a oportunidade de se mostrar e rivalizar com as expressões culturais dominantes”. Também Carlos Seixas aponta com principal “culpado” da aproximação dos ecos do mundo, “o mundo global em que vivemos, a que a evolução exponencial da tecnologia não é alheia e ao respectivo acesso cada vez mais democrático à informação”. da vez mais democrático à informação”.
Ainda que por vezes, nesse gesto de colagem aos padrões universais, as culturas locais “percam parte da autenticidade que as distingue”, como nos diz Jorge Costa, é este o lado mais positivo da globalização, para muita gente. Vasco Sacramento acredita nesse lado: “As pessoas circulam muito mais, havendo uma tendência forte para a mestiçagem”, reafirma o fundador da SET. Raquel Bulha está de acordo: “A World Wide Web, quer queiramos assumir ou não, é o veículo privilegiado e facilita a comunicação e crescente motivação pelo desconhecido ou o nunca antes ouvido”.
Apesar das fronteiras derrubadas pelo processo de globalização permitirem viagens sem fim, Alexandre Lemos encontra um problema relevante: “Ainda que aquilo que são as premissas iniciais de quando se começou a editar e a fazer concertos com o paradigma de músicas do mundo – tornar global o local – aconteça, nem tudo é tão linear. Isso não tem as consequências que as pessoas que se meteram nisto de boa fé esperavam que tivesse. Os músicos não encontram espaços globais, os conceitos musicais é que encontram”, critica.

Uma questão de etiqueta

Nos corredores das lojas de discos, somos confrontados com cada vez mais prateleiras, divisórias e sub-divisórias. A música é retalhada em géneros que, segundo os especialistas, podem nem existir concretamente. Para muitos deles, a world music é só mais um rótulo para facilitar a procura nessas estantes de infinita extensão. Claudino Ferreira passa a explicar: “Chamamos música do mundo a quase tudo, hoje em dia. O que cria verdadeiramente a world music é essa estratégia da indústria discográfica de criar uma categoria, dentro da qual vai incluir um determinado tipo de produtos que, por essa classificação, aponta para um certo tipo de público”.
Para alguns, faz todo o sentido etiquetar os sons do mundo. “Faz sentido, isso sim, dar destaque e incluir todo o tipo de música numa qualquer enciclopédia com essa temática e com todas as prateleiras que quiserem inventar. Na realidade, até são classificações úteis para quem tem que trabalhar nisto, diariamente”, afirma Raquel Bulha, apontando para o seu trabalho de locutora e DJ. Carlos Seixas remonta ao passado, lembrando que a intenção, na época em que se criou esta designação - década de 80 - era bem mais “prosaica” que aquela de definir, musicalmente falando, um género ou uma especialidade. “Era sobretudo a maneira mais prática de poder arrumar nas prateleiras das lojas de discos artistas provenientes de todo o mundo, não pertencentes à área  da música anglo-saxónica”, conclui.
A impossibilidade em estabelecer fronteiras na música do mundo, faz ponderar alguns dos amantes deste género-entre-aspas. Jorge Costa é um deles, afirmando que processo de catalogação “destes espécimes musicais únicos, acabam por vezes por ser contraproducentes ou por gerar alguma confusão junto do público menos habituado a uma incomensurável panóplia de termos”.
Terá sido por isso que a editora inglesa Rough Guides tenha vindo a dividir a world music em dois extensos volumes: um dedicado a África, Europa e Médio Oriente, e outro à América, Ásia e Pacífico.
 “Os rótulos são todos muito ambíguos, são criados. Mas, a certa altura, acabam por desvincular-se de quem os criou, passando a funcionar como categorias com as quais as pessoas raciocinam. São fundamentais para nós, para nos situarmos. É perverso querer essencializar os rótulos. A world music é dos rótulos mais ambivalentes que existe”, resume Claudino Ferreira. Os portugueses Dazkarieh, por exemplo,  “estão a tentar fugir a esse rótulo. Mas por mais que queiram, não conseguem. Vão sempre ser música do mundo”, exemplifica André Dias. A tarefa parece estar, um pouco, nas mãos do ouvinte, sendo este que identifica a música que ouve. “Não é apenas uma questão de mercado. Nós é que temos o hábito de categorizar tudo, como forma de facilitar  a leitura da música”, conclui o autor de Rodobalho.
Vasco Ribeiro especifica: “O chavão «músicas do mundo» é apenas um maneira de catalogar como qualquer outra. Da mesma maneira que existem milhares de tipos de rock ou de metal, podemos colocar dentro das músicas do mundo uma enorme diversidade de estilos musicais mas, em geral costumam ser mais acústicas e com instrumentos tradicionais das culturas que representam”.
A designação músicas do mundo tem vindo a tornar-se, progressivamente, uma fenómeno secundário e imposto pelos jornalistas, comentadores e críticos, a fim de arrumarem esta “nova” música, divulgada ao mundo, nas prateleiras das lojas, lado a lado com as categorias mais absolutas: pop, rock, jazz ou música clássica.
(continua) 
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Actualizado em ( 20-Jul-2007 )
 
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