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por: Marta Poiares (Re)Inventar tradições Mescla de inúmeras correntes musicais, a world music impõe, inevitavelmente, problemas de definição. Se a premissa é globalizar o que é local, poderemos incluir a música tradicional nas músicas do mundo? Raquel Bulha não tem dúvidas: “Fala-se em músicas do mundo e, automaticamente, remetemo-nos para um campeonato de música tradicional, ligada às raízes e à cultura local. É convicção de muita gente - ideia transmitida também por João Aguardela, ex-vocalista dos Sitiados, numa entrevista para o Plan3ta sobre o Megafone 4 - que a tradição já não existe. O simples facto de Michel Giacometti (etnomusicólogo corso) ter recolhido tantas amostras daquilo que o povo recriava enquanto trabalhava ou enquanto se divertia, já é sinónimo de alteração e projecção da verdadeira essência desses registos. Tudo isto é verdade, mas se essa tradição já não existe, como fazemos?”, pergunta.
André Dias, imiscuído no mundo da cultura tradicional, responde, recordando que o GEFAC, realidade mais próxima de si, faz quase todo o seu reportório como sendo tradicional, a partir das recolhas do [Michel] Giacometti e do [Fernando] Lopes-Graça. Recolhas essas, que não estagnaram nos anos 60. “Continuam a fazer-se recolhas – o Centro Sons da Terra, em Sendim, a Pé de Xumbo, César Prata dos Chuchurumel, Tiago Pereira, são apenas alguns nomes”, afirma. E prossegue, defendendo que, apesar de tudo, “não faz sentido rotular a música como sendo tradicional. Não existem fronteiras completamente fechadas”. Tal como Raquel Bulha, António Pires mostra-se mais assertivo quanto à questão de separar estas duas (?) linhas musicais. “Todas as expressões populares, étnicas e de raízes tradicionais podem ser incluídas no universo das músicas do mundo. Estas são uma manta de retalhos sonoros, uma mistura de misturas, um fractal musical”, exprime, com veemência. “Para haver world music”, continua o autor de Raízes e Antenas, “é necessário que haja uma ligação qualquer a uma música tradicional qualquer”. Através da reinvenção de músicas de raiz, fundindo-a com estéticas de outras regiões, grupos como os Galandum Galundaina ou mesmo os Gaiteiros de Lisboa integram-se facilmente nesse circuito. “Tudo é transformado e transformável e isso só pode ser sinónimo de criatividade”, reafirma Raquel Bulha. Criatividade que surge como primeiro passo para fugir a ditaduras musicais, objectivo voluntário da música do mundo. Longe do consenso e da certeza, André Dias aproxima a música tradicional das músicas do mundo, no sentido em que “são parecidas na procura de raízes”. Mas raízes, raízes, abordagens à parte. “A diferença que existe é na abordagem. Enquanto os promotores das músicas do mundo seguem uma abordagem normalizada de promoção, na música tradicional, tenta-se construir os grupos e os reportórios de forma diferente, não fazendo o roteiro de rádios ou a realização de grandes concertos”, esclarece André. O FMM arrisca, mostrando em palco produtos que ainda não existem, apoiados numa forte divulgação e em fundos que permitem essa ousadia. O mesmo não acontece com o Intercéltico ou com o Andanças, festivais de menor financiamento, de menor público. Uma questão de elitismo, poderá pensar-se. “Não. Tem que ver com o preconceito do rancho. Tem o estigma muito forte da velha senhora, de estarem completamente cristalizados”, ironiza o membro do GEFAC. A tradição reinventa-se, permanece o preconceito. No princípio, era o verbo arriscar Preconceito ou uma questão de espera, no ano de 2002, Portugal contava apenas com dois festivais dedicados à world music: o FMM, em Sines, e o Cantigas de Maio, no Seixal. Ambos realizados no Verão, com entrada gratuita e de cariz politizado. Vasco Sacramento quis fazer tudo ao contrário. Criou, nesse mesmo ano, o festival Sons em Trânsito, a realizar no Inverno, a pagar bilhetes e sem tendências políticas pelo meio. “Só o facto de os festivais pioneiros serem gratuitos fazia com que não houvesse uma dignificação que as músicas do mundo mereciam”, explica o produtor. Passados apenas quatro anos, Portugal assiste a cerca de 20 festivais de world music. “É certo que os festivais de músicas do mundo, estão a crescer. Há 11 anos atrás, quem era a Pé de Xumbo? Eram quatro pessoas a organizar o Andanças, na altura. Agora, são 400 pessoas. Há uma abertura muito maior. É muito mais fácil fazer uma jam session no Largo do Carmo e não te chamarem maluquinho por estares a dançar ou a fazer música. Há pessoas que param e participam”, brinca André Dias. Carlos Seixas, responsável pelo FMM, justifica o salto quantitativo na oferta deste segmento de mercado, através da “maior exposição mediática dos artistas, dos esforços de uma mão cheia de editoras especializadas e das distribuidoras com políticas de vendas mais agressivas”. Alexandre Lemos salienta essa mesma questão: “Penso que Portugal tem um mercado de world music, porque tem empresários nessa área. A Megamúsica, a Sons em Trânsito e a própria Câmara de Sines – que acaba por funcionar como entidade empresarial – fazem com que a música do mundo aconteça em Portugal”, explica. No princípio, produtoras de eventos estritamente ligados à world music conjugavam, de facto, o verbo arriscar. Porém, Carlos Seixas explica que “foi um risco assumido logo de início, relacionado com a filosofia inerente ao conceito de festival que queríamos realizar”. Um festival singular, sem termo de comparação, de novidade em punho. Acima de tudo, “uma festa que divulgasse a diversidade e o conhecimento de outras culturas através da música, a qualidade como única concessão aos projectos e artistas a apresentar, e a criação de novos públicos disponíveis para serem o suporte principal dessa nova aventura”, enumera o produtor do FMM. O sociólogo Claudino Ferreira enfatiza a indispensabilidade de um produto cultural conter algo de diferente. “É necessário arriscar, claro. Há as grandes companhias internacionais, com o mercado garantido, e as independentes que apostam mais na inovação, por não terem alternativa. A novidade tem de explorar nichos de mercado, tendo um grupo pequeno, mas leal de compradores”, explica. Escape ou não aos mesmos cabeças de cartaz dos inúmeros festivais pop/rock em Portugal, os números não enganam. Tanto o FMM preenche Sines, por inteiro, durante dez dias de festa, como o já falecido maliense Ali Farka Touré tinha, em Lisboa, mais de dez mil pessoas a assistir ao seu concerto. Luís Rei decifra os algarismos, compreendendo que também o panorama dos festivais tem vindo a mudar. “Deixaram de haver aqueles festivais dedicados à música de carácter mais etnográfica (Cantigas do Maio, Encontros da Tradição Europeia) para passarmos a ter festivais que têm de pôr a malta nova a dançar, aos pulos”, conta. Na verdade, até os próprios festivais pop/rock, dominantes em Portugal, vão pisando o terreno das músicas do mundo. No palco do Festival da Zambujeira do Mar, já estiveram Hedningarna, Los de Abajo ou Cheikh Lo. Ao do minhoto Festival Paredes de Coura, preparam-se para subir, ainda este ano, os Gogol Bordello. Uma verdadeira ode ao hibridismo musical.
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