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Músicas sem Fronteiras II PDF Imprimir e-mail
Escrito por Administrator   
18-Jun-2007
por: Marta Poiares 
 
A oeste nada de novo

 Não raras vezes, atribui-se a origem do amplo sucesso desta categoria ao “esgotamento” da música ocidental. Susana Sardo explica porquê: “Esgotou-se a inspiração conceptual para criar qualquer coisa de novo no Ocidente. Procuram-se novas estruturas rítmicas para transformar a música”. Emerge, então, a necessidade de músicas que espelhem a multiplicidade e gritem a diferença.
Alexandre Lemos é prova disso mesmo. “Ao fim de uns anos de rádio, estava a criar um enjoo à matriz anglo-saxónica de música, sempre com as mesmas escalas, as vocalizações no mesmo sítio, a mesma estrutura de refrão. A música do mundo surgiu como uma possibilidade pop com novas músicas”, conta o locutor da RUC. A súbita e crescente curiosidade por este género surge, indiscutivelmente, lado a lado com a apregoada ditadura cultural anglo-saxónica. Quem o explica é Claudino Ferreira, sociólogo e professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Face a um público sedento de novos fenómenos, é natural que “a indústria invente o reverso da medalha – as músicas tradicionais, étnicas”, analisa. 

E, de facto, da voz dos amantes da world music, saem palavras de contentamento perante a constatação do novo, do desconhecido. Vasco Sacramento, por exemplo, não avista o fim dos novos achados na world music. “Não há um dia em que eu não descubra uma banda, um instrumento, uma melodia. As pessoas estão cansadas da música mainstream americana e britânica. Soa tudo a déjà vu”. Déjà ecouté, acrescento.
Quem cria esta situação, assim sendo? “Os menos culpados são os próprios anglo-saxónicos que se limitaram a perceber que a cultura é a melhor forma de exportação de identidade de um país”, defende o produtor de eventos. Em Portugal, “somos muito servilistas relativamente à cultura americana”, acrescenta.
André Dias é da opinião de que o próprio rótulo de músicas do mundo implica essa ditadura anglo-saxónica: “O aparecimento do tradicional é precisamente a rejeição desse rótulo, um mecanismo para contrariar uma lógica de mercado que é perigosa e submissa”, explica. Já Raquel Bulha, descreve o sucesso da world music como sendo algo inevitável e fruto de maturidade: “Nem todo o consumidor de música cai no exagero de andar a vida toda a ouvir mais do mesmo. Essa coisa de ouvirmos músicas em loop, - de grupos iguais uns aos outros cuja única diferença é a escolha do cabeleireiro - em casos ditos “normais” deverá parar por altura da adolescência”, comenta, de mordacidade no discurso.
De facto, a possibilidade de encontrar algo que destoe dos tons anglo-saxónicos parece ser bem-vinda. “Como todos os ocidentais, estava um pouco desesperado por descobrir uma coisa diferente daquilo que tem acesso comum”, confessa Alexandre Lemos, ilustrando essa ideia.
Não é por acaso que a própria UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em Outubro de 2005, tenha adoptado a Convenção sobre a Protecção e Promoção da Diversidade Cultural. Tal medida surge pelos dados concretos de que 90% da produção cultural é anglo-saxónica. “É uma forma de resistência às leis do liberalismo. A decisão da UNESCO obriga a que os Estados se comprometam a proteger o que de seu têm, em termos culturais”, pormenoriza, esperançoso, Alexandre. De discurso mais radical, Raquel Bulha acredita que “a hegemonia quando existe nunca é positiva” e que, perante uma “óbvia” ditadura das músicas com suporte mediático garantido, a música do mundo surge como uma espécie de salvação. “Uma revolução que ataca e contesta quem nos impinge fórmulas de conjugação de acordes e língua”, explica a locutora de Plan3ta.
Já Vasco Ribeiro Casais (nyckelharpa, bouzouki, gaitas-de-fole e flauta) do grupo musical Dazkarieh, não está tanto de acordo com essa explicação, adoptando uma bem mais simples: “Pode ser apenas a necessidade de conhecer outros universos, outras linguagens que toquem na alma de quem as escuta”, declara. Também o jornalista António Pires, vê o “fenómeno” world music como uma “tentativa, saudável, de abrir horizontes”, acrescentando que dessa cultura anglo-saxónica “saem, também, coisas muito boas”.
A adesão às músicas do mundo tem, no entender do produtor de Multipistas, junto dos jovens, um ponto de partida. “São os mais permeáveis a novas experiências sonoras, tanto devido à saturação causada pela arrogância e inércia do mercado discográfico e radiofónico, como à curiosidade demonstrada por estes, perante universos musicais até há pouco tempo desconhecidos”, desenvolve Jorge Costa.
No entanto, não é pré-requisito abandonar o Ocidente. Afinal, “músicas do mundo são todas as músicas do mundo”, graceja a etnomusicóloga Susana Sardo. Até porque, a world music também vive de fusões. “Tem que ver com a cada vez maior miscigenação de estilos de linguagens mais jovens e urbanas (pop, rock, hip-hop, dub, etc.) com as diferentes tradições locais”, explica Luís Rei. E António Pires reforça: “Há muita gente que gosta de world music e gosta também de rock, de electrónicas, de hip-hop, de jazz, etc.”.
(continua) 
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