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Músicas sem fronteiras I PDF Imprimir e-mail
Escrito por Administrator   
11-Jun-2007

world music musica do mundo(Com este texto iniciaremos uma série de publicações parciais de um artigo mais vasto, da autoria de Marta Poiares, a quem agradecemos a colaboração)

 

Num universo musical em que as prateleiras se enchem de rótulos mais-do-que-repartidos, cresce uma categoria trazida pelos ventos do mundo lá fora. Amálgama de géneros musicais, a world music surge como um mundo aberto e em constante mudança, sem convenções ou desígnios fixos. Fruto da globalização ou da fuga à mesma, as músicas do mundo mantém-se um convite a mergulhar bem fundo na terra e dela trazer as raízes dos sons.
Marta Poiares

O mundo é o nosso continente


A kora, o sitar ou o didgeridoo são instrumentos que trilham uns dos muitos caminhos para a descoberta das músicas do mundo. Resultado de um maior interesse pelo que é local no global ou mais um fenómeno musical entre outros tantos, é certo que a world music cresceu e apareceu nos nossos dias, cada vez mais diversa na própria diversidade. O que é, então, a world music?

“Se quisermos fazer um pouco de humor, todas as músicas são músicas do mundo. Se quisermos ser um bocadinho mais específicos, é um enorme caldeirão onde cabem as músicas étnicas, puras, dos países que não fazem parte da esfera anglo-saxónica, mas também grupos e artistas que fazem a fusão de músicas tradicionais com géneros anglo-saxónicos”, ensina António Pires, ex-jornalista do jornal de música BLITZ e autor do blog Raízes e Antenas.

Foi em 1987, há 20 anos atrás, que Paul Simon, numa viagem à África do Sul, travou conhecimento com Joseph Shabalala, frontman do grupo Ladysmith Black Mambazo. Juntos, acabam por gravar Graceland, o álbum embrionário da world music. “Tudo isto começa com uma incursão de alguns músicos norte-americanos em África e com a publicação do Graceland, onde tínhamos os coros africanos a fazer de base de um disco de música ocidental”, explicita Susana Sardo, etnomusicóloga e professora no Departamento de Música da Universidade de Aveiro.
A partir desse momento, abriu-se a porta à diversidade sonora. Duas décadas depois, essa porta parece não ter fecho anunciado. “Existe uma abertura cada vez maior a bandas que cruzam tradições musicais indígenas com linguagens urbanas. Além disso, há uma maior “guettização” relativamente a projectos mais puristas, mais etnográficos (que têm de ser ouvidos sentados numa cadeira de um anfiteatro) e de maior exigência musical”, diz-nos Luís Rei, autor do conhecido blog Crónicas da Terra, dedicado exclusivamente à world music.
Delineada por regiões geográficas e guardadora de inúmeros estilos, abre-se, então, uma espécie de caixa de música telúrica, vinda das origens dos povos e sociedades. Um cenário de verdadeira osmose musical num continente de gente comum. No entanto, nem tudo é assim tão simples.

Alexandre Lemos, locutor do programa Artesanato Sonoro, na Rádio Universidade de Coimbra (RUC) e DJ de world music, defende que esta viagem interplanetária de sons, ritmos e vozes distintas é apenas um fenómeno do fácil. E explica: “As pessoas não se dão ao trabalho de perceber o porquê de certas características da música. Levam um disco de blues do Mali e não fazem o resto do percurso”. O locutor do programa de músicas do mundo da RUC diz que tal não implica que se tenha de ouvir a música de uma forma demasiadamente analítica, mas considera uma clara “ilusão pensar que se percebe a vida no deserto, só porque se ouve Tinariwen”. Alexandre não deixa de revelar alguma desilusão com o comportamento dos ouvintes. “As músicas que foram trazidas aos ocidentais, de outras paragens, estão a ser trazidas dentro de um fascínio muito oco, pouco aprofundado”, lamenta. Será, então, uma questão de fascínio fácil?

Jorge Costa, apresentador, produtor e realizador do programa Multipistas, da Rádio Urbana, não partilha esta ideia, chegando mesmo a considerar o exercício de escuta da world music “um exercício antropológico”. “As músicas do mundo não podem ser desligadas de um contexto social e cultural específicos. É isso que lhes oferece alma e identidade bem vincadas. É o que as diferencia das fórmulas mais sintéticas e analíticas, acusticamente complexas, mas sem qualquer tipo de densidade”, descreve convictamente o locutor.

Já para Raquel Bulha, locutora do programa Plan3ta, da Antena 3, é precisamente a diversidade da world music que torna os ouvintes deste género-com-aspas “mais tolerantes e receptivos à novidade”. Contudo, é nesta diversidade que também se reflecte a dificuldade em demarcar as fronteiras na música do mundo. Nem músicos nem estudiosos do assunto sabem onde começa ou onde acaba a world music, mas parece ser isso que catapulta este “largo caldeirão” de sons para os ouvidos do planeta azul. “Nesta designação, pela sua ambiguidade, cabiam todos os géneros de música, da etno à folk, da pop à clássica. Por causa disso, estabeleceram-se subgrupos, por países de origem: África, Europa e Médio Oriente, América Latina e Caraíbas, Ásia e Pacífico”, elucida Carlos Seixas, director criativo e de produção do Festival de Músicas do Mundo, realizado em Sines, desde 1999.

Raquel Bulha não parece incomodada com essa ambiguidade: “O bom da questão é que podia passar de tudo. Cinco anos depois da primeira edição do Plan3ta – formato rubrica - continuo a pensar desta forma”, esclarece. Daí que a locutora não concorde com uma enciclopédia de músicas do mundo. Não pela vastidão ou diferenciação de temas, mas porque, para si, “não faria sentido”. Jorge Costa realça também esse rol de estilos inerente a este género: “É um terreno pantanoso, em grande parte ainda inexplorado, mas que por isso mesmo torna as músicas do mundo tão únicas e apetecíveis”, conclui.

André Dias, autor do blog Rodobalho – dedicado à música tradicional – e membro do Grupo de Etnografia e Folclore da Academia em Coimbra (GEFAC), lembra ainda outro ponto da essência das músicas do mundo, ligado ao efeito de participação e à cegueira auto-imposta da descoberta. “Não há uma atitude passiva de ver um concerto, mas sim de tu fazeres o baile ao som de uma banda que nem conheces. Não há a adoração da banda”, sublinha. Referindo-se aos romenos Fanfare Ciocarlia, Vasco Sacramento, fundador da Sons em Trânsito (SET) – empresa de espectáculos culturais –, reforça também essa característica, mostrando que o sucesso da world music vive mais “do ambiente que a constrói”. Ambiente esse, inter-geracional, inter-rácico, inter-social. “Nos concertos de world music, vês gente de todos os estilos. Gente rica, gente pobre, gente nova, gente velha” conta, de entusiasmo no olhar.
(continua)
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Comentarios (2)Add Comment
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escrito por anasus, Junho 12, 2007
Não será a "world music" apenas mais um produto da dita globalização? Não tentará de certa forma subverter o trabalho local, regional que tanto se apregoa?
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escrito por meitas, Janeiro 11, 2008
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Actualizado em ( 12-Jun-2007 )
 
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