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Libertar A Dança PDF Imprimir e-mail
Escrito por Carlos Daniel   
27-Set-2007
Alice aprende a dançar a «Quadrilha da Lagosta»Durante anos, se uma vozinha no éter dissesse «danças populares», a imagem que de imediato se formava na minha cabeça era a de meia dúzia de pares com trajes exóticos a fazer danças de roda, todos muito certinhos e alguns rubras-faces algo incomodados com a turba de mirones que em volta e de braços cruzados sobre os abdómens proeminentes observa aquilo que é suposto eles serem como povo ou coisa que o valha.

Infelizmente, longe de desaparecer, esta imagem ainda persiste. As danças populares parecem reduzir-se às demonstrações dos grupos folclóricos, cuja curiosidade lembra mais um bocejo de arqueólogo. Apesar do bonito espectáculo, não deixam de estar atados ao anacronismo de algo que já deixámos de ser ou que nunca fomos exactamente, e por isso acaba por servir de material isolante entre bailadores e um público que assiste com a passividade de quem tirou uma «ficha» para a máquina do tempo numa qualquer feira popular. Parecemos turistas de nós mesmos, uma coisa lamentável.

Ora na minha opinião, esta separação tem de acabar! É preciso conquistar aos fantasmas o espaço das danças, livrá-lo do estigma museológico dos trajes «polacos», destruir o público integrando-o, trazer as panças para as danças, as sopeiras para as eiras, os pirralhos para os balhos!
E esta libertação recíproca das danças e seus praticantes não é possível, ou não será duradora, sem o simultâneo evoluir da música, da criação verdadeiramente popular -- nossa, entenda-se. A urgência de novos repertórios e novos arranjos justifica-se para combater a fatal necessidade da versão pobre das danças: o bailarico chunga da cantiga pimba ora brejeira ora chorona.

Muitas pessoas não sabem mas sentem-se atraídas para dançar quando vêem que outras tais como elas -- do público -- o fazem com intenso prazer e sem os preconceitos do costume. Quem esteve na Praça do Peixe em Aveiro no sábado passado decerto terá percebido isto durante o excelente baile dos Uxu Kalhus. Paciência com os pés pisados caros amigos, daqui a uns anos o cardume será maior e aí não haverá tubarão-martelo que nos ameace o baile!

Carlos Daniel, 27-09-2007
 
imagem: Alice aprende a dançar a "Quadrilha da Lagosta" 
Lewis Carrol, Alice's Adventures In Wonderland 
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Comentarios (2)Add Comment
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escrito por cristina, Setembro 27, 2007
«Parecemos turistas de nós mesmos» - excelente expressão!

«Muitas pessoas não sabem mas sentem-se atraídas para dançar quando vêem que outras tais como elas -- do público -- o fazem com intenso prazer e sem os preconceitos do costume.» - exactamente: «não sabem»!!!

Qunto aos pés pisados na Praça do Peixe, é mesmo isso, «paciência» smilies/smiley.gif
...
escrito por cristina, Setembro 27, 2007
Já agora, acho que vem a propósito: http://geracao-rasca.blogspot.com/2007/09/uxu-kalhus-x2.html

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Actualizado em ( 27-Set-2007 )
 
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