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Dancemos no mundo! PDF Imprimir e-mail
Escrito por Administrator   
13-Fev-2007
...ou a crónica do bom ladrão.

O título é, obviamente, tomado ao grande Sérgio Godinho. O corpo do texto é empréstimo do visionário Paulo Pereira, fundador do Andanças e flautista dos Uxukalhus - por falar em uxukalhus, já ouviram o excelente "revolta dos badalos"?

As palavras que se seguem, entremeadas com alguns comentários meus, são o texto que apresentava os extintos Bailia, um grupo dedicado à apresentação de músicas e danças desta Europa. O desafio é fazer um exercício, com o texto como base, de memória, de crítica, daquilo que era sonho e do que se tornou realidade.
Reza então assim:

"Desde sempre, num tempo em que a história se perde na memória dos povos, a dança tem constituído um meio privilegiado de expressão cultural, estabelecendo as diferenças e semelhanças entre povos, países e regiões:
 em Cabo Verde e no Brasil; em Portugal e no Québec; na Catalunha e no País Basco; no País de Gales, na Irlanda e na vizinha Galiza; em França e na Bretanha; na Gasconha e na Polónia; podemos encontrar , entre todas estas culturas, pontes que as aproximam através da dança (Mazurcas, Quadrilhas,.) e da música (Concertina, Violino,.) mas que em cada local adquirem uma cor diferente, enriquecendo o nosso património universal comum.  
 
Este processo cultural, contínuo e ininterrupto desde o seu início, corre agora o risco de se perder na sequência do crescente triunfo da lógica individualista das sociedades modernas. Em Portugal, os espaços naturais da dança e da convivialidade popular - os terreiros das aldeias, no final de mais um àrduo dia de trabalho, as grandes romarias de Verão ... - foram perdendo gradualmente o seu lugar em favor da música Pimba, do Big Show Sic  [uma clara marca do momento em que tece lugar a escrita] e da ida ao Hipermercado do bairro ou da cidade mais próxima. A harmonia antes assim celebrada, através da dança e da música, entre o Homem e a Natureza, acompanhando os ciclos das estações do ano, do trabalho, da alegria, da vida, perde-se agora cada vez mais nos meandros da mentalidade urbano-depressiva. Com tudo isto perde-se também o sentimento profundo de pertença a um todo, em que quem toca e quem dança se junta para formar um colectivo que é muito mais que a mera soma das partes.  
 
Quem participou já de algum modo nestes movimentos contracorrente (que fazem desta filosofia a sua bandeira), seja em França, na Irlanda, em Espanha ou em qualquer outra parte do mundo, guardou certamente na pele o sabor inesquecível de viver uma experiência única de festa e partilha. É essa experiência que queremos que todas as pessoas que participem numa festa, num baile, tenham a oportunidade de viver. Talvez assim, devagarinho, as danças voltem às ruas, e a cultura saia da sua redoma de vidro, forçosamente com estilhaços e muitos gritos, mas - também por isso - decididamente viva e reinventada, quebrando as engrenagens monolíticas do pensamento único (que virá a seguir à moeda única)."

Tenho poucas certezas, engano-me vezes que cheguem, e muitas dúvidas. As perguntas inundam-me... e uma salta depois de reler este texto: O que mudou entretanto?
Será que "Os movimentos" deixaram de ser contracorrente?
A dança voltou à rua? Alguém foi tomado pela alegria do baile? Ainda existem redomas de vidro?
Não quero responder a nenhuma destas, deixo-as a pairar, num baile de palavras.
Sei que há 10 anos atrás iria rir e gozar com alguém que me dissesse que havia jovens de 20 anos a dançar o vira num festival de verão, e durante o ano, com um sorriso profundo nos lábios. Hoje isso acontece.. tantas vezes!!!
 
artigo originalmente publicado no programa canto nómada.
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Comentarios (4)Add Comment
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escrito por cristina, Fevereiro 21, 2007
- EU sei que há 2 meses atrás «iria rir e gozar com alguém que me dissesse que havia jovens de 20 anos a dançar o vira num festival de verão, e durante o ano, com um sorriso profundo nos lábios.» Estou agora a descobrir que «hoje isso acontece.. tantas vezes!!!» =)
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escrito por Andre, Fevereiro 22, 2007
smilies/smiley.gif
Bem vinda, sei que te vais sentir muito bem.
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escrito por admin, Fevereiro 22, 2007
Olá Cristina,

Posso publicar aqui a tua posta no "geração rasca" de 03 de Jan sobre a passagem de ano?
Acredita, um texto tão belo como aquele é a maior razão de o peixe ter dado ao mar.
...
escrito por cristina, Fevereiro 25, 2007
Muito agradecida pelas boas-vindas!

Claro que podem publicar o que escrevi - lisojeada por terem apreciado.

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Actualizado em ( 28-Abr-2007 )
 
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