|
...ou a crónica do bom ladrão.
O título é, obviamente, tomado ao grande Sérgio Godinho. O corpo do texto é empréstimo do visionário Paulo Pereira, fundador do Andanças e flautista dos Uxukalhus - por falar em uxukalhus, já ouviram o excelente "revolta dos badalos"?
As palavras que se seguem, entremeadas com alguns comentários meus, são o texto que apresentava os extintos Bailia, um grupo dedicado à apresentação de músicas e danças desta Europa. O desafio é fazer um exercício, com o texto como base, de memória, de crítica, daquilo que era sonho e do que se tornou realidade. Reza então assim:
"Desde sempre, num tempo em que a história se perde na memória dos povos, a dança tem constituído um meio privilegiado de expressão cultural, estabelecendo as diferenças e semelhanças entre povos, países e regiões:
em Cabo Verde e no Brasil; em Portugal e no Québec; na Catalunha e no País Basco; no País de Gales, na Irlanda e na vizinha Galiza; em França e na Bretanha; na Gasconha e na Polónia; podemos encontrar , entre todas estas culturas, pontes que as aproximam através da dança (Mazurcas, Quadrilhas,.) e da música (Concertina, Violino,.) mas que em cada local adquirem uma cor diferente, enriquecendo o nosso património universal comum. Este processo cultural, contínuo e ininterrupto desde o seu início, corre agora o risco de se perder na sequência do crescente triunfo da lógica individualista das sociedades modernas. Em Portugal, os espaços naturais da dança e da convivialidade popular - os terreiros das aldeias, no final de mais um àrduo dia de trabalho, as grandes romarias de Verão ... - foram perdendo gradualmente o seu lugar em favor da música Pimba, do Big Show Sic [uma clara marca do momento em que tece lugar a escrita] e da ida ao Hipermercado do bairro ou da cidade mais próxima. A harmonia antes assim celebrada, através da dança e da música, entre o Homem e a Natureza, acompanhando os ciclos das estações do ano, do trabalho, da alegria, da vida, perde-se agora cada vez mais nos meandros da mentalidade urbano-depressiva. Com tudo isto perde-se também o sentimento profundo de pertença a um todo, em que quem toca e quem dança se junta para formar um colectivo que é muito mais que a mera soma das partes. Quem participou já de algum modo nestes movimentos contracorrente (que fazem desta filosofia a sua bandeira), seja em França, na Irlanda, em Espanha ou em qualquer outra parte do mundo, guardou certamente na pele o sabor inesquecível de viver uma experiência única de festa e partilha. É essa experiência que queremos que todas as pessoas que participem numa festa, num baile, tenham a oportunidade de viver. Talvez assim, devagarinho, as danças voltem às ruas, e a cultura saia da sua redoma de vidro, forçosamente com estilhaços e muitos gritos, mas - também por isso - decididamente viva e reinventada, quebrando as engrenagens monolíticas do pensamento único (que virá a seguir à moeda única)."
Tenho poucas certezas, engano-me vezes que cheguem, e muitas dúvidas. As perguntas inundam-me... e uma salta depois de reler este texto: O que mudou entretanto? Será que "Os movimentos" deixaram de ser contracorrente? A dança voltou à rua? Alguém foi tomado pela alegria do baile? Ainda existem redomas de vidro? Não quero responder a nenhuma destas, deixo-as a pairar, num baile de palavras. Sei que há 10 anos atrás iria rir e gozar com alguém que me dissesse que havia jovens de 20 anos a dançar o vira num festival de verão, e durante o ano, com um sorriso profundo nos lábios. Hoje isso acontece.. tantas vezes!!! artigo originalmente publicado no programa canto nómada.
Trackback(0)
Copyright 2007. All Rights Reserved. |