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Adufolia PDF Imprimir e-mail
Escrito por Administrator   
11-Fev-2008

(por Carlos Abrunheiro. Vencedor do passatempo Entrudanças) 

 

adufeO adufe é um instrumento de percussão português que terá evoluído dos membrafones introduzidos na Península Ibérica pelos árabes entre os séculos VIII e XII. Dessa herança histórica terão surgido também os mais variados pandeiros e as populares pandeiretas. A influência não se fica pelos instrumentos como também os ritmos terão migrado do norte de África. A própria palavra adufe é muito provavelmente a junção do artigo "al" com a palavra "duff", a designação comum entre os árabes para este género de instrumentos ancestrais, que admitem variadas formas e tamanhos.

Ao contrário da pandeireta, do bendir persa e afins, o adufe é um instrumento quadrangular talvez por motivos simbólicos alheios à sonoridade pois esta forma apresenta dificuldades na sua construção, na fase em que as peles são esticadas sobre a moldura de madeira e posteriormente cosidas manualmente. Resulta assim um instrumento com duas membranas paralelas em pele de cabra ou ovelha, mas apenas uma é percutida ao executar a música. É tradicionalmente um instrumento quase exclusivamente tocado por mulheres, pelo que é feito com pau de laranjeira, uma madeira leve e cuja árvore está culturalmente muito associada à castidade, razão pela qual marca presença na celebração do noivado ou mesmo em vários actos religiosos. No interior do adufe chocalham levemente um par de guizos suspensos ou então pedrinhas, sementes, caricas, etc. Nos 4 cantos ondulam fitas coloridas ornamentais.
Um adufe segura-se com ambas as mãos em lados adjacentes, usando os polegares e o indicador da mão direita. A pele é então percutida pelos restantes dedos, executando diversos ritmos a acompanhar os cânticos da adufeira.

O adufe foi também exportado para outros países, e participou inclusivé na génese do samba brasileiro. Em Portugal, a sua popularidade é muito evidente no interior beirão e actualmente tem vindo a ser resgatado por músicos profissionais que entretanto vão também introduzindo alterações curiosas como são exemplos os adufes gigantes de José Salgueiro e o sofisticado adufe pneumático criado por Paulo Meirinhos. Este último invento tem a vantagem de permitir esticar a pele em jeito de afinação, já que o adufe é muito sensível a variações de humidade e temperatura.

Alterações modernas comuns são também a utilização de pinho ou eucalipto na sua construção, e até a fixação da pele por meio de agrafos, o que não sendo problemático na sonoridade do instrumento, revela que a sua descaracterização resulta de algum desleixo ou facilitismo proporcionado pelo progressivo desaparecimento dos velhos artesãos e da práctica ancestral.
De resto, as adufeiras estão ainda amparadas pelo crescente interesse pela cultura tradicional, e aparentemente terão sobrevivido à ameaça da desertificação como parece testemunhar o elevado número de participantes na oficina de adufe na segunda edição do Iberfolk em Sortelha, no ano passado.

Entre o vasto repertório de cantares e lenga-lengas, escolhi uma cantiga popular da beira onde o protagonismo se divide entre adufe e a adufeira (ou um povo):

as armas do meu adufe
são de pau de laranjeira
quem houver de tocar nele
há-de ter a mão ligeira

o luar da meia noite
guarda-to lá pró Verão
quem anda cego de amores
quer escuro, luar não

Dado o período festivo actual, poderia evocar o excelente tema do Entrudo do Zeca Afonso, mas melhor sugestão leio nesta segunda quadra já que Fevereiro inaugura na próxima semana uma lua nova de inverno provocadora.
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Actualizado em ( 11-Fev-2008 )
 
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